Por muito tempo… – aos queridos

outubro 3, 2009
Segue texto que escrevi ha tempos, mas ficou no pen-drive esperando um dia menos corrido para postar. Até que hoje, plena noite de sábado, depois de trabalhar o dia todo e com trabalho marcado para as 8h de amanhã, resolvi postar. Porque li queridos pedindo noticias, e isso é mais forte que qualquer cansaço… Nada de hard news, mas dá uma idéia do que andei – e ando – fazendo por aqui.

Lá se vão meses desde o último dia em que postei (nao conto aqui a promessa de retorno breve, que não cumpri…). De lá para cá, fiz tanta coisa que nem poderia contar aqui. E aconteceu muita coisa em Timor-Leste, claro. O blog passou em branco até pelo 10º aniversário do Referendo de 30 de Agosto de 1999, coitado. A data, que fez do Timor independente, ao mesmo tempo, fez arder em chamas boa parte do país e deixou muitas vítimas. Ainda hoje é possivel encontrar pelo caminho varias casas queimadas.

Eu segui – e sigo – com o Rama Ataúro, o jornal de parede comunitário, que continua mensal e firme. Mas (isso não contei aqui e é uma novidade tão velha que já terminou) durante dois semestres, ainda dei aulas no recém-criado Curso de Comunicação Social. Pois, tanto tempo se passou que tive em inicio de Agosto minha festa de despedida dada pelos alunos. Despedi-me também do International Center For Journalists (ICFJ), meu contratante para as aulas na UNTL, pelo qual durante esse período também trabalhei dando treinamento a grupos de jornalistas profissionais da mídia local.

Sinto saudades da turma, que me conquistou – e me fez trabalhar como louca – com tamanho interesse em aprender, e por muito carinho que recebi também. “Biin, inam e companheira”, ouvi no discurso deles para a minha saída, e me emocionei demais. Só estando cá nesse lado do mundo para saber o que significa, não adianta traduzir. Mas as aulas páram até Janeiro e eu, que não consigo parar…

despedida4despedida2despedida3

Bom, antes de seguir para “novos desafios”, partimos a conhecer novos lugares: uma semana na região central da Ilha de Java. Por lá vimos dois templos de séculos (Borobudur, budista, e Pranbanan, hinduísta), um vulcão ativo nas montanhas de Diem – que, aliás, impressionam pelas plantações que cobrem tudo de batatas, fumo e mandioca.

 Borobudurjava27

BOROBUDUR (acima). Eu, esticada para tocar no Buda escondido (abaixo, esq.): dizem que da sorte…

Disseram que era preciso tocar no Buda (escondido ai dentro) e fazer um pedido...java3Pranbanan
Pranbanan: inscricao na parede (abaixo), nos com ele ao fundo (acima a direita) e ele, majestoso (acima) 

Parede do PranbananVulcao de Diem

                                          Vulcao de Diem
Em casa, desfiz as malas de Java para refaze-las sem saber bem o que precisava levar na bagagem. Não, ainda não era para voltar ao Brasil. Bem pelo contrário, estou vivendo em Manufahi, um dos 13 distritos de Timor-Leste, trabalhando na equipe da ONU que dá suporte as eleicoes para liderancas comunitarias, marcado para 9 de Outubro.

Hora de conhecer gente nova e sacudir a poeira porque, afinal, ninguém vai ao outro lado do mundo para reproduzir rotinas que tanto incomodam quando se está “em casa”.

 Então, queridos, querido blog: daqui, tento seguir prá frente. Afinal, o que passou…

Breve retorno, ou retornarei em breve

setembro 6, 2009

Tanta coisa aconteceu e o blog, coitado, ficou no esquecimento. Agora me preparo para voltar, em breve, ja que me mudei de distrito e fui viver no interior de Timor-Leste, o que me traz uma realidade nova. Espero que me mantenha “no ar” por algum tempo desta vez…

Chacoalhados

dezembro 9, 2008

Sabado, 6 de dezembro de 2008. Eu estava em casa quando mais um terremoto ocorreu por aqui. Primeiro, pensei que eu que estivesse tonta – havia acabado de me levantar do bruscamente do chao. Percebi que era a terra quem tremia quando ouvi as batidas dos vizinhos nos ferros (segundo a lenda, o barulho e para lembrar a Deus que ainda estao por aqui). Saimos para a rua, mas sem panico: acho que e o quinto desde que chegamos, estamos acostumados. Confira noticia abaixo:

Sismo de 6,2 graus na escala de Richter sentido em Díli

Um forte sismo, com a magnitude de 6,2 graus na escada de Richter, foi sentido hoje em Díli, mas não há registo de vítimas ou estragos materiais, disse fonte do Centro Nacional de Operações, de Timor-Leste.

O abalo foi registado às 19:55 horas de Díli (10:55 horas de Lisboa).
Segundo o Centro de Geológico de Vigilância Sísmica norte-americano, o abalo foi localizado 160 quilómetros a noroeste de Díli, no Mar de Banda, com o epicentro a ser registado à profundidade de 408 quilómetros da crosta terrestre.
O sismo foi longo, tendo sido sentido durante quase um minuto na capital timorense.
Timor-Leste está localizado no chamado Anel de Fogo, zona de confluência de várias placas tectónicas.

Rama Ataúro, agora com mural

dezembro 1, 2008

raO jornal-mural que nasceu pequenininho cresce todos os dias. A gurizada de Ataúro está cada vez mais empolgada com o trabalho, já propõe transformar o jornal de parede em tablóide e tal. Por enquanto, bolamos esses suportes de madeira pintados de azul para determinar melhor onde colar e dar às três páginas mensais um lugarzinho legal.

Ganhamos 45 desses murais do do International Center for Journalits (ICFJ) em Dili. Além disso, propus que participassem de um treinamento básico em jornalismo comunitário, também promovido pelo ICFJ. Todas as quintas, sextas e sábados, por quatro semanas, 14 jovens de Ataúro aprendem como formular pautas, fazer apuração, entrevistas…

No mais, agora temos um patrocinador para a impressão de cada página do jornal: o próprio ICFJ, o Instituto Camões e a Timor Telecom. Para dar à equipe uma ajuda de custo (até agora eles tiravam do bolso a grana para transporte e telefonemas), conquistamos ainda o apoio do Centro Juvenil Padre Antônio Vieira. Afixar o jornalzinho nas paredes por la e uma das coisas que mais gosto: ver criancas, jovens, adultos, velhos, todo mundo se agl;omerando em frente para ver, e muito legal. Parando perto dos murais, mas meio escondido, e possivel ouvi-los lendo as noticias em voz alta uns para os outros.

O publico, creio que podemos dizer assim, ja e cativo. (Fico devendo uma foto da equipe que faz o jornal, e promete para breve). Essa gurizada vai longe!!!

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Tristeza – aconteceu o inevitavel?

dezembro 1, 2008

Depois de ser salva de virar churrasco, a Allegra morreu nesta terca (18/11), atropelada.

Ainda tentamos levar ao veterinário, mais por descargo de consciência, no intuito de dar-lhe uma injeção para aplacar a dor, que por alguma esperança. Ao olhar para ela de primeira, nenhum arranhão. Mas quando a vi no chão, chamei, acarinhei e ela só me lançou um olhar triste, sem se mexer… Ficaram só as marcas da roda da Pajero que passou por cima da barriguinha dela. Morreu comigo, a caminho do veterinário, com hemorragia interna.

Foi-se, perdi minha grande companheira, leal e carinhosa, em Timor.

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Allegra em dois momentos: “olha como sou fotogenica” (esq) e “estou com sono” (dir)

Chegar em casa e não receber a festa da pequena deixou triste o compound todo, fez muito marmanjo chorar. Postos diantes dos múltiplos perigos que rondavam a cadela, decidimos não adotar outro bichinho.

 

Quem lembra do Orçamento retificativo???

dezembro 1, 2008

Muito falei nesse blog sobre o Orçamento Retificativo, aprovado em agosto na Parlamento Nacional (na verdade, poderia ter falado muito mais, mas ha coisas que acho melhor nao fazer…).

Pois, embora por aqui, por incrível que pareça, nem mesmo sua aprovação tenha repercutido muito, agora o assunto volta à tona, para desfazer o aumento de mais de 120% no orçamento de 2008 que, confesso, me deixou de cabelo em pé.

Confira matéria da Lusa:

 

 

Macau, China, 14 Nov (Lusa) – O Tribunal de Recurso de Timor-Leste declarou inconstitucional o Fundo de Estabilização Econômica, uma rubrica do Orçamento de Estado aprovada pelo Parlamento sem plano de despesa, disse hoje à agência Lusa Mari Alkatiri.

Contactado telefonicamente a partir de Macau, o líder da Fretilin explicou que o Tribunal de Recurso, que tem poderes de fiscalização constitucional, declarou a “inconstitucionalidade” do Fundo além de classificar também de “ilegal” a transferência do Fundo do Petróleo acima do permitido.

“Este fundo, uma espécie de ‘saco azul’ de 240 milhões de dólares para o Governo utilizar como bem entendesse, foi criado com transferências acima do permitido pela Lei que regula o Fundo de Petróleo”, disse Mari Alkatiri.

As transferências do Fundo de Petróleo de Timor-Leste estão reguladas em norma própria, existindo uma fórmula de cálculo a ser aplicada para garantir a sustentabilidade futura da reserva financeira.

Mari Alkatiri explicou também que o Tribunal “foi generoso” aceitando todas as despesas já efectuadas pelo Executivo de Xanana Gusmão, uma decisão que deixa preocupada a oposição.

“É preciso ter cuidado para que o Governo não comece a inventar recibos com datas anteriores para contornar a decisão do Tribunal”, disse Alkatiri ao sustentar também que “toda a atenção está agora centrada nesse detalhe”.

“Se o fizerem é crime e terão de responder criminalmente. Se não for agora será quando houver mudança de Governo”, avisa.

Mari Alkatiri acrescentou ainda que a decisão do Tribunal coloca o Governo em crise porque “se tinha planos para gastar o dinheiro não o vai poder fazer e isso precipita uma decisão de realizar novas eleições”.

O Orçamento rectificativo já tinha sido criticado por organizações internacionais e deixado em alerta o Fundo Monetário Internacional devido ao aumento da despesa em 122 por cento face ao documento original, gastos potenciados pela criação e aumento de subsídios e vencimentos, construção de uma central de fuel óleo e rede de distribuição eléctrica.

A própria promulgação do Orçamento por parte do Gabinete de Ramos Horta esteve envolta em polémica já que o chefe de Estado tinha levantado dúvidas sobre o Fundo de Estabilização Económica.

Ramos Horta queria esperar pela decisão do Tribunal de Recurso mas antes de deixar Díli para uma visita a Pequim assinou o Orçamento rectificativo para o caso do Tribunal o declarar constitucional.

O documento acabaria, no entanto por ser enviado para publicação no primeiro dia de ausência de Horta do país, validando a proposta aprovada no parlamento.

Em Dezembro de 2007, o Parlamento timorense aprovou o Orçamento de 2008 no valor de 347,5 milhões de dólares norte-americanos e a nova proposta apresentada no final de Junho aumentava as provisões orçamentais para o mesmo ano num total de 773,3 milhões de dólares.

A rectificação no Orçamento significava um aumento de 425,6 milhões de dólares nos gastos públicos para este ano em relação ao Orçamento aprovado no final de 2007.

Dos 773,3 milhões de dólares, 686,8 milhões de dólares eram financiados por transferências do Fundo Petrolífero.

Reconciliação, mas com Justiça

dezembro 1, 2008

12nov1O espetáculo das velas toma a cidade à noite, mas os eventos populares que lembram a data ocupam todo o dia, feriado nacional. Missa, apresentações culturais (dança, música e teatro – nesse ano se fez, in locu, uma dramatização do massacre) e discursos – muitos. Durante as atividades, um grupo de jovens segurava cartazes que diziam: “Reconciliação sim, injustiça não”. E, vez que outra, gritavam: “Justiça, justiça, justiça!!!”. Se manifestavam contra as movimentações do governo timorense e a expressa vontade de Ramos-Horta, seu presidente, que disse algo do tipo “o que passou, passou, vamos perdoar e caminhar para a frente”, e chegou a pedir publicamente que a ONU parasse as investigações sobre os crimes cometidos pela Indonésia em Timor-Leste durante os 24 anos de ocupação. Quer paz, diz, quer manter a ótima relação que tem sido estabelecida com o vizinho.

12nov31A juventude, no seu dia (no ano passado, 12 de novembro ganhou o título de “dia da juventude”, ja que os massacrados de Santa Cruz eram quase todos estudantes), defende a paz com mémoria, o perdão e a reconciliação com Justiça. Exigiram, com megafone e demonstrada disposição de se manifestar de forma pacifica, que os crimes sejam julgados pelo Tribunal Internacional.

 

 

 

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Terror pela TV – O mundo é apresentado ao Timor

dezembro 1, 2008

Calcula-se que mais de 200 tenham morrido naquele dia. Conta-se que muitos, feridos, foram recolhidos em viaturas e levados ao hospital – mas eram mortos no caminho ou lá dentro mesmo, onde supostamente deveriam receber atendimento médico. Esses dias Dom Basílio do Nascimento, Bispo de Baucau  (distrito de Timor-Leste), declarou que nunca se vai saber de fato quantos perderam a vida naquele dia.

Além da forte carga emotiva que a data tem para o povo timorene, soma-se à carga mítica que cerca o 12 de novembro outro fator: um cinegrafista que acompanhava a caminhada conseguiu filmar o massacre. Foi interceptado pelos militares, mas conseguiu esconder a fita com o registro em um túmulo e lá voltar no dia seguinte para buscá-lo e exibí-lo ao mundo. Um passo importante para a independência de Timor-Leste, já que as atrocidades que ocorriam por aqui há anos ganharam evidências de forte apelo midiático, dando um empurrãozinho a decisões políticas contra a ocupação Indonésia do território.

Os mortos ganharam contornos de heróis, mártires da independência de um povo que hoje, em reflexão profunda, às vezes parece não ter tanta certeza de que tudo valeu a pena…

12 de novembro – Massacre de Santa Cruz

dezembro 1, 2008

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Dili enche-se de velas acesas na noite de 12 de novembro. Lado a lado desenhando uma linha que acompanha o traçado das ruas. E assim todo ano desde 1993 – mais claramente desde 1999/2000, quando o país tornou-se independente e as manifestações foram liberadas.

As luzes que impressionam quem circula lembram o Massacre de Santa Cruz, quando dezenas de jovens que participaram da missa em homenagem a um colega morto pelos soldados indonésios seguiram em caminhada, saindo da igreja de Motael em direção ao cemitério de Santa Cruz. Ao chegarem lá, foram recebidos por soldados indonésios, que comecaram a atirar contra o grupo sem explicação (haveria alguma cabível?).

Ate logo, Parlamento

dezembro 1, 2008

A bancada da Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin), a maior do Parlamento timorense, anunciou que pode abandonar as 21 cadeiras que ocupa no legislativo nacional (das 65 totais da casa). O anúncio foi feito o pelo presidente da Fretilin, Francisco Guterres Lú Olo, após uma reunião do comitê central da do partido no Sábado, 8 de novembro.

Conforme Lú Olo, não há data para que os deputados da bancada de seu partido saiam do Parlamento, mas isso pode acontecer até o final do ano. Ele afirma que o Parlamento Timorense tornou-se um instrumento de governo, onde não há espaço para debater assuntos de interesse nacional ou fiscalizar as ações do executivo, e acusa os deputados da Aliança para a Maioria Parlamentar (AMP), base do governo do primeiro ministro Xanana Gusmão, de boicote às iniciativas da oposição.

 

Na mesma reunião, ficou confirmada a realização da Marcha da Paz, mas a manifestação segue sem data divulgada. Lú Olo diz que a Marcha deve ocorrer depois da conclusão no processo de eleições dos novos dirigentes do partido em 13 distritos, 65 subdistritos e mais de 400 aldeias. Até agora, menos da metade deste processo foi realizado, e só quando todos os novos dirigentes forem conhecidos a data da marcha será definida.